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26/01/2018 15:14

Montadores ganham a vida arriscando perdê-la a cada competição saiba mais

Pelo menos duas centenas de homens (somente na Baixada Cuiabana) encarnam em si a busca do ideal humano por finalmente vencer a natureza. No caso, manifestado por dominar, à mão, animais ferozes de até uma tonelada. São os peões de rodeio ou montadores profissionais de touros e cavalos (como são chamados nos Estados Unidos). O  conversou com quatro deles (três de touros, um de cavalos em bareback, modalidade também classificada nos EUA).

São pessoas que ganham a vida paradoxalmente arriscando-se a perdê-la no mínimo 100 vezes por temporada. Em Mato Grosso, iniciada em maio e terminada em setembro, podendo, entretanto, se estender até outubro, no caso dos que participam dos torneios internacionais, mais notadamente nos Estados Unidos e México, mas estendendo-se, em alguns casos, à Guatemala, Costa Rica, Canadá, Austrália e França.

É uma vida em tudo difícil como e bem além dos pouco mais de dois minutos (entre o brete e a arena), devido à preparação física, certo cuidado com a alimentação e, claro, muitas e muitas montadas e quedas durante os treinos, diários em épocas como a de agora, de pré-temporada.

Os ganhos variam muito. “Podem ir de R$ 2 mil para um quinto lugar até R$ 7 mil para o primeiro, nos rodeios pequenos”, explica Adão Graciano Andrade, 26 anos, peão de montaria em touros desde os 13, profissional há cinco. “Nos rodeios grandes, o valor pode chegar até R$ 20 mil pro primeiro lugar”, continua, sendo esses valores médios para Mato Grosso, podendo aumentar em eventos de grande porte, como o de Barretos, no interior de São Paulo, e, claro, nas competições internacionais.

Acervo Pessoal

Peoes de Montaria

No México, Fernando Duarte recebe o prêmio pelo vice-campeonato em montaria de touros

Contendas como as das quais participa Fernando Duarte, 28 anos, a levar a vida sobre o lombo dos bichos de no mínimo 500 quilos desde os 14. Ele foi duas vezes vice-campeão nas duas últimas edições de um rodeio no México. Se deu pra ficar rico? Não, pois, como lembra bem, ninguém ganha sempre e os atletas vivem de fase. “Tem fase que não ganha nada, tem vez que machuca e não pode competir”, expõe. Na última vez, em fins do ano passado, conseguiu amealhar pouco mais de R$ 10 mil (ou 60 mil pesos mexicanos).

Dessa conta, tem de se subtrair também os meses parados, por não haver competições, logo que começam os períodos de chuva no país. Na horta de quem monta em cavalos então, com as águas, cai menos dinheiro ainda, conta Luis Américo Moreira, 31, a montar desde os 11. Nesse início, ainda em touros. Em busca de novos desafios, em 2014 passou a montar cavalos selvagens a pelo (a tal de bareback falada no começo da matéria).

Há muito menos competições desse tipo de montaria no Brasil e, portanto, é inviável pagar as contas exclusivamente com os rodeios, explica Luís Américo, que vende chapéus para bancar o arroz e o feijão nesses intervalos. E isso porque ele tem no currículo conquistas como ser finalista do campeonato nacional Top Team Cup, campeão em um rodeio no México, finalista do maior rodeio da Europa, na França, além de ser o atual campeão da modalidade no maior dos rodeios brasileiros, o de Barretos, e também campeão nacional pela Confederação Nacional de Rodeio, a CNAR.

É o caminho pretendido pelos em início no circuito profissional, como Júnior Alves, 29, desafiando a morte nas costas de touros desde os 17. A linha que o une ao campeão dos cavalos é o trabalho fora das competições, porém, no caso dele, em bicos de serviços gerais nas próprias fazendas.

Enquanto os grandes resultados não chegam, o negócio é treinar, algo que todos fazem muito: pelo menos quatro horas três vezes por semana nas montarias mais as outras nas academias improvisadas por eles lá mesmo nas propriedades onde os chamados tropeiros mantêm os touros e, alguns, centros de treinamento.

Espaços esses, aliás, tão presentes em Mato Grosso quanto as competições. E essas atraem também gente de outros estados, como o baiano Fabiano Oliveira Lima, 32, na montaria desde os 14 e profissional há oito. Nesse período, já conquistou seis motos, além de mais de R$ 20 mil em dinheiro.

Acervo Pessoal

Peoes de Montaria

Luís Américo recebe, na França, premiação pela vitória num torneio de montaria em cavalo

Vem sempre da Bahia para cá, participar dos rodeios. Lembra bastante de Juína, onde conseguiu seus melhores resultados.

Com diversidade de histórias, origens, raças e classes sociais, em comum para todos há a plena ciência do quão arriscada é a atividade a que se propõem.

Perguntados quanto ao medo de perder a vida ou as funções do corpo em algum acidente e se isso não os paralisa, todos respondem em uníssono: o maior medo é o de ter de parar de competir, não da morte ou da lesão em si.

Gente brava como canta o coro de Sófocles à certa altura da Antígona:

“Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o homem! (...) A tribo dos pássaros ligeiros, ele a captura, ele a domina; as hordas de animais selvagens, e de viventes das águas do mar, o homem imaginoso as prende nas malhas de suas redes. E amansa, igualmente, o animal agreste, bem como o dócil cavalo, que o conduzirá, sob o jugo e os freios, que o prendem dos dois lados; bem assim o touro bravio das campinas”.

Galeria de Fotos

Credito: Acervo Pessoal
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Montaria em cavalos é considerada ainda mais perigosa devido à altura dos saltos e violência das pisadas
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Luís Américo na França, recebendo a premiação pela vitória num torneio de montaria em cavalo categoria bareback
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Em uma dos vários eventos no Brasil, Fernando Duarte participa de toda a temporada entre maio e setembro
Credito: Acervo Pessoal
No México, Fernando Duarte recebe o prêmio pelo vice-campeonato em montaria de touros
Credito: Gilberto Leite
Paramentos de montaria são encontrados na Texas Country, loja há 21 anos no mercado
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Fabiano Lima, 32: "vida de rodeio é difícil, mas ninguém consegue largar quando entra". Mora na Bahia, mas passa quase seis meses em Mato Grosso, competindo
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Fernando Duarte é campeão nacional e internacional de rodeios. Nas duas primeiras vezes no México, chegou em segundo. Vai de novo este ano
Credito: Gilberto Leite
Rotina de treinamentos é bastante puxada para os peões. Risco de lesões começa já nos ensaios
 
 
 
 
 

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