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08/05/2018 09:38

Há 100 anos juiz afro descendente Wladimir Matta alfabetizava presos e comunidade em Minas Gerais

Formado em direito pela USP (universidade de São Paulo) em 1889,  quando essa ainda era conhecida por Faculdade de Direito de São Paulo, Wladirmir do Nascimento Matta foi uma figura importante da sociedade mineira do século XX, lembrado principalmente pela sua atuação como juiz de direito na cidade de Muzambinho, município localizado na região sul de Minas Gerais. 

Matta, além de Muzambinho, também foi atuou como juiz em Tiradentes onde iniciou quando ainda essa se chamava São José d'El Rei, Machado, Carangola, Abre Campo, Rio Novo e Paraguaçu, todas cidades mineiras. Em Machado ele também teria atuado como promotor antes de tornar-se juiz, de acordo com documentos históricos do governo de Minas. 

Antes de se decidir pela magistratura, Matta havia feito viagens culturais à Europa, frequentou os mais famosos cursos da Faculdade de Medicina de Paris, como os de Charcot e Bouchard. Foi nesse período correspondente do jornal “O Reformador” da Federação Espírita Brasileira. 

Ao conhecer a situação dos presos da época, não muito diferente da atual quando se trata da restrição e situações carcerárias, mas muito diferente quando da periculosidade dos crimes, Matta compadeceu-se dos presos, muitos julgados por ele, e decidiu evangelizá-los. 

Contudo, a tentativa inicial não estava sendo muito frutífera, pois a maioria deles não podia fazer o acompanhamento pela  baixa ou nenhuma alfabetização. Foi assim que ele, que descende da união de um africano, agraciado pelo Imperador com a comenda da Ordem da Rosa pelo seu talento no trabalho, e uma francesa, seus avós, começou a lecionar para os presos utilizando as leituras bíblicas como base. 

Começando do básico, onde ensinava a ler, escrever e contar, no sistema carcerário mais tarde abre em sua casa um curso de alfabetização gratuito à comunidade, que aconteciam as noites para qualquer um que desejasse freqüentar, que chamou de Liceu Tiradentino. 

Em todas as comunidades que passou Wladimir Matta contribui de alguma forma socialmente, quase sempre em assuntos relacionados à educação, ou como na fundação da Casa de Caridade de Carangola, uma instituição apontada como um exemplo em centro cirúrgico na região. 

A maioria dessas informações foram dadas por seu amigo e ex-colega de faculdade o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Edmundo Lins (1863-1944). 

“Valendo-se de seus conhecimentos médicos hauridos na Escola de Medicina de Paris, e sempre municiado de uma caixa completa de remédios homeopatas, atendia a todos os doentes pobres de São José d'El Rei [Tiradentes] e imediações, medicando-os e fornecendo-lhes alimentos.” Lembra Lins, e também que essa aproximação freqüente com pessoas do povo, e rigidez contra as ações coronelísticas de grandes proprietários de terras e políticos locais, o fizeram ser conhecido como um juiz realmente justo. 

Esse apreço pela educação rendeu frutos, que levaram seu filho, o Oduvaldo Matta, que iniciou sua carreira profissional na indústria química, à também se dedicar a educação fundando com sua esposa, a professora Antônia de Santa Rita Matta, o colégio que homenageou com o nome do pai, Ginásio Wladimir  Matta, em Tijuca no Rio de Janeiro. 
Oduvaldo, com a educação que recebeu do pai se tornou um poeta lírico de excelência, e que teve recentemente parte de seu trabalho em forma de poemas, cartas e peças de teatro, reunidas no livro chamado “Sob a Luz de Antares” (2017, editora Autografia). 

Wladimir do Nascimento Matta faleceu no Rio de Janeiro em 03 de agosto de 1932, aos 70 anos de idade, e como sugestão do amigo ex-ministro Edmundo Lins a família busca no legislativo de Muzambinho que seja dado o nome de Wladimir à uma rua da cidade.

(Por Ronaldo Marcos)


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